terça-feira, 19 de setembro de 2017

As Cartas do Caminho Sagrado



       Desde meus 13, 14 anos que eu via significados nas cartas. Nem necessitavam ser cartas de Tarot.
       Bastava algum ser humano mais incauto jogar buraco ou truco próximo a mim, que as cartas da sua mão já tomavam algum significado.
       Era um infortúnio. Sentia-me uma perfeita invasora de privacidade.
       Com o tempo, fui aprendendo os mecanismos de tiragem das cartas, alguns jogos ou disposições das cartas, sempre com outros cartomantes mais experientes, que  nem precisavam ensinar muito.               Bastava um jogo, e eu já estava lá, reproduzindo fielmente.
       Passado um bom tempo, depois de me aprofundar no Tarot, sobretudo em seu uso terapêutico, justamente quando eu conheci de perto as práticas xamânicas, também fui apresentada às Cartas do Caminho Sagrado.
       Esta é a descrição que podemos encontrar no site da Editora Rocco, que o publicou aqui no Brasil:

“Na tradição dos povos indígenas da América do Norte, a atenta observação da Natureza é uma regra de vida que se cumpre com amor e alegria. Todo o conhecimento acumulado é um repositório de noções precisas sobre os modos de ser revelados pela Mãe Terra em suas interações com os fenômenos cósmicos. A adequação de todas as formas de vida aos ciclos e ritmos telúricos é considerada fundamental para a saúde não só de seres humanos e animais como também do próprio planeta. Esse respeito amoroso por tudo aquilo que acontece e condiciona a presença de homens e mulheres no mundo é um traço de união entre as inúmeras tribos do hemisfério norte e é também uma característica que se sobrepõe a todas as peculiaridades que as distinguem.
Para a autora, que é membro dessa comunidade, não foi difícil harmonizar os ensinamentos escolhidos no seio das nações Seneca, Asteca, Choctaw, Lakota, Maia, Yaqui, Paiute, Cheyenne, Kiowa, Iroquesa e Apache, e, obtida a aprovação de seus maiores, difundir, para além das fronteiras tribais, essas preciosas lições de vida.
O livro acompanha 44 cartas primorosamente ilustradas, contendo cada uma delas um sentido e uma mensagem particulares, que podem ser usadas uma a uma em consulta diária ou organizadas em seqüências que apontam diversos caminhos para o conhecimento interior. Utilizadas com o texto correspondente, que explica as várias formas e métodos de interpretação e adivinhação, as cartas revelam-se a serviço da intensificação da autoconsciência e da mudança positiva. As cartas do caminho sagrado visam, portanto, auxiliar o inquieto peregrino espiritual em sua viagem de autodescoberta, abrindo-lhe as portas para novos modos de pensar, de viver, de ser.”

       Confesso que no nosso primeiro contato, eu e as Cartas não tivemos uma afinidade muito grande. Hoje eu percebo que isso aconteceu exatamente por que aquilo que as cartas diziam naquele momento eram tudo que eu não suportava ouvir, e por isso fiz “ouvidos moucos”, fechei os olhos da intuição.



       Entretanto, com o passar do tempo, elas foram me atraindo muito, num crescente tão forte, que mesmo com edições esgotadas, eu comprei o livro usado, e imprimi as cartas, apenas para ter o prazer de usá-las. Era tal qual um chamado.
       Pois bem.
      Obedecendo ao Instinto, imprimi as cartas, e fiz meu primeiro jogo, que se chama A Kiva. O livro tem vários outros tipos de jogos e arrumações das cartas, entretanto, o jogo da Kiva é o único que só pode ser feito APENAS UMA VEZ. Obviamente, pelo seu caráter perene, este foi o primeiro jogo que eu fiz para mim mesma. Vejam as fotos:




     Foi um ritual lindíssimo, no dia 05/07/2017.
    Na próxima postagem darei detalhes sobre como é o Jogo da Kiva, e a interpretação da primeira carta que tirei.


       Saudações! 
       Ahow!
       De Nuvem Branca. 


Navalhas e vozes


Vozes, vozes, vozes, vozes… Ela ouvia as elétricas, ouvia as mais humanas. Já ouve tempo em que era a sinfonia de gritos de palavras vindas de corações maldosos. Ainda antes ouve tempo em que as palavras eram indiscretas, mordazes e lascivas. Revelavam segredos podres que ela não queria ouvir.
Hoje pareciam apenas acordes de uma sinfonia inusitada. Ela já teve ódio das pessoas e suas palavras. É verdade, seu tempo mais feliz ocorreu no tempo em que passou absolutamente só. No tempo em que significava desespero e fracasso ouvir outras vozes.
Mas ela passou por isso. Transcendeu a raiva. Talvez nem fosse uma legítima aversão. Talvez até fosse afinidade. Mas melhor mesmo era fingir-se soberba, superior. Entretanto, aquela altura, já aprendera a desligar-se de suas falhas, e conseguia escutar. Ultimamente, ia além. Observava olhos, gestos. Era prazeroso descobrir segredos que as pessoas não conseguiam camuflar. Ela percorria feições, cacoetes. Elaborava delicadas prováveis personagens. Talvez apenas pelo prazer de condená-las ou absolve-las. Ser juíza e algoz. Prazer nefasto.
Observar dores e desenhar se elas são ou não merecidas. Apontar o lápis e observar desejos secretos, ajustamentos de braços e mãos que sentenciem possíveis traições.
Olhares cúmplices de ciúme e vergonha. Aqueles momentos únicos em que olhares se cruzam e investigam até mesmo aquilo que não queremos admitir. Dentro das pessoas existem desejos de morte. Os olhos dela adentram a parte suja dos corações.
E se deliciam. Também existe maldade dentro dela. Mas ela não a nega, nem cultiva culpa. Ela sorve o conteúdo dos lábios, ao ver que o mal insiste em não se materializar por muito pouco.
Dores que ela ambiciona por ser cúmplice.
As paredes são de um amarelo bem claro, as luzes são insistentes, quadradas, fortes e múltiplas.
Na cadeira ao lado, sons de uma boca muito parecida com uma que ela ama e odeia. A conversa sem hostilidades se faz tão prazerosa. É como uma conversa com ela, mas sem as armaduras. Um chá da tarde, num lugar bonito. Duas damas confidentes, elegantes e maliciosas.
O tempo a leva embora, os dedos estalam, e logo ela se percebe no limiar da dor. Minto. Nem tanto a dor. Mais a prova viva, inegável, purulenta e adornada de pus, que apenas reflete a ela o quanto ela permitiu-se vulnerável. Não é culpa. Ela não perde tempo. Ela apenas queria saber por que. Qual mecanismo de portas? Trincas? Ferrolhos? Chaves? Maçanetas? Portas? Tampas? Uma janelinha? Teria ela serrado alguma grade?
O que ela teria deixado aberto? Onde ela teria sido descuidada? Sem lamentações. Ela apenas precisava saber em que ponto tinha acontecido o vazamento, para conte-lo abruptamente.
Não se permitia ser fraca. Não se permitia esquecer suas origens. Queria apenas conseguir ser mais atenta.
Tinha outras opções. Será que esse era o início de sua quase morte? Nesses tempos, isso ainda seria necessário? Não negava que adoecia em todos os órgãos possíveis. Infecções da alma por todos os lugares.
Não poderia aceitar a outra possibilidade. A tristeza. Será mesmo que ela teria aberto todas as possibilidades infecciosas possíveis para a sua alma? Se assim ocorreu, não poderia deixar de se surpreender com tamanha façanha. Mesmo para quem ambiciona morrer, esse ainda podia ser visto como um grande feito. Imagine abrir todas as comportas da carne, vulnerabilizar-se por todos os poros?
Dê certo modo, ela compreendia que, de tanto ouvir aos outros, ficara surda para si mesma. Criou dentro de si um jogo onde apenas ganhavam aqueles que não tinham por si mesmos o menor vestígio de compaixão.
Tudo que chegava perto disso, ela rejeitava veementemente. Criou para si a metodologia de que viver era um surfista já velho e enfraquecido pelo tempo, mas que mesmo assim tentava dominar as melhores ondas. Uma luta completamente injusta e desigual. Viver significava atirar-se no precipício, sem preocupar se com cortes, escoriações, ossos quebrados ou com a morte. Ela, achando-se boneco de plástico flexível, viveu por entre quedas em abismos… Quase sempre.
Entretanto, nesse momento, ferimentos à mostra, infeccionados de morte, ela sabia que precisava viver. Não permitir que se escapasse por entre seus dedos, o restinho de vida que ainda podia agarrar. Pó de canela que se sopra.
A vida era hoje, agora. Atriz exímia que era, fingia muitíssimo bem um interesse pela vida, uma fome de conhecimento. Buscava o Sagrado. Aconselhava pessoas tão profissionalmente, que nem a maldadezinha se manifestava nessas horas. Mas existia um momento onde se revelava a fresta. Ao acordar. Não nos dias em que ele a acordava com beijos. Nesses não acontecia. Naqueles em que o despertador tocava a musiquinha de ninar, acredito eu que acontecia, mas a pressa a colocava rapidamente em contato com esse tempo e esse espaço. Sei que o Grande Buraco apresentava-se com todas as suas garras quando ela acordava sozinha e sem pressa. Uma pequena voz, chata e incoerente, murmurava pequenas frases desconexas, que ela teimava em não ouvir: “que merda”, “isso não acaba nunca” “quero voltar” “por que tenho que sair daqui?” “Não quero voltar para aquele lugar” “existe algo no mundo que me faça ter vontade de estar ali?”…
Ela sabia o que significava. Mas até então entendia como algo comum. Quem não quer permanecer no círculo energético? Quem não quer não sair nunca de perto dos melhores amigos?
Mas nem ela poderia vislumbrar que o inconsciente põe em prática seus desejos. Quem imaginaria que o seu próprio inconsciente seria obstinado ao ponto de abrir as portas do seu corpo físico para a morte? Mesmo você não desejando isso. Ou enganado, achando inocentemente que não quer.
Ela ficava sem fôlego, sentindo que seu inconsciente tentava mata-la, e ela nem ao menos sabia onde seriam as próximas navalhadas. Precisava lidar com isso.

O que você faria, caso sua mão esquerda tomasse vida própria, agarrasse uma navalha, e tentasse te matar, golpeando sem obedecer-te?

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ode à Lua


Eu,  sentindo-me presa, dentro das paredes de pedra, vendo-a por um vidro. Ainda assim, a sua Luz  penetra-me os poros. Aquece meu coração. Seus raios de poder e êxtase me fazem saudosa de um tempo onde meus pés pisavam a terra. Todo o Tempo.  Fecho os olhos, e de repente, as paredes somem, a terra é quente sob meus pés, a música é forte. Outras mãos puxam minhas mãos, e eu giro na dança.
A saia balançava na mistura de dança e vento. Meu cabelo levitava com o vento, e em certos momentos, eu não sabia o que eram cabelos, o que eram folhagens.
A fogueira estava tão alta, que algumas vezes eu tinha a impressão de que as labaredas mais altas é que iluminavam as estrelas.

O canto que vinha das irmãs alegrava todos os meus sentidos, os abraços, os sorrisos. Eu estava em casa.
Em certos momentos, executávamos a dança sincronizada, cabeças baixas, reverentes,  filhas humildes e caprichosas, saudando a presença da Grande Mãe.
E no alto da noite, Ela ficava entre nós, abençoava nossos ventres, nosso coração, nossas ideias. Mostrava-nos os melhores caminhos, encorajava-nos nas nossas grandes decisões. Não havia como alguém não sentir-se feliz e amado em Sua PRESENÇA. O coração se enchia de esperança e bons conselhos.
Quando a noite começava a se cansar, nós também sentávamos ao redor da fogueira,  já mais baixa, entre ombros e colos, e Ela nos contava histórias de épocas muito remotas, de terras muito distantes, onde gigantes caminhavam, e o Poder habitava todos os seres.
Faltando algum tempo para o sol voltar a brilhar, nós, felizes e exaustas, voltávamos para o acolhimentos de nossos catres perfumados. Para um amanhecer que curava as feridas do corpo, do coração. Dormíamos horas sem sonhos, mas acompanhadas pelos sorrisos.
E eu... Abri os olhos. Vi teto, parede, cortina e vidro. Mas guardei na lembrança o presente da Lua, em forma de recordação.








quarta-feira, 5 de julho de 2017

Tempo (Ou exorcismo)

(Madrugada de segunda feira, 03/07/2017. 00:17)
Nunca pensei que eu poderia querer tanto bem a uma pessoa.
Ao ponto de oscilar entre deixar minha vida inteira pra trás, e ao mesmo tempo, ser tão cuidadosa ao ponto de fazer tudo pra manter a sua vida intacta, a não deixar estragos nos teus planos. Faço como você quiser.
Como eu poderia sonhar tanto com alguém, me satisfazer em cada abraço, suspirar de admiração...
Olhar pra você e saber que eu me deparo com o exemplar mais raro...
Tão precioso pra mim... Tão significativo.
Eu te quero tanto nos meus seios, desmaiado...
Eu quero tanto sentir seu suor pingar em mim, seus pelos grudarem na minha pele, seu calor me invadindo...
Eu desenho cada contorno que meus dedos farão nos seus cabelos. Quilômetros de cafuné.
Eu decoro seu cheiro...
Eu te sorrio de várias formas...
Eu exalo cuidado
Carinho
Admiração
Você, a alma mais preciosa...
Você, a minha contraparte.
Sinto, sonho, desejo que em um tempo, que em um espaço, não importa quando nem onde, nem em qual dimensão, nós teremos nosso "pra sempre".
Nossa cabana.
Viver do seu lado...
Esquecer o egoísmo
Esquecer o medo
Esquecer todas as dores.
Você, meu esconderijo.
Meu homem.
Quero um tempo de limpar suas feridas.
De massagear seus ombros, seus pés, seu corpo inteiro.
Quero um tempo de fazer as rezas mais antigas, os chás que forem necessários, pra curar a sua gripe, as suas dores, os teus temores, te beijar, benzer e te proteger... O corpo e a alma. Cada beijo, uma oração.
Quero um tempo de poder cozinhar as delícias que você gosta. Me esforçar em todos os âmbitos pra te ver sorrir. 
Encher nossa casa com um cheiro de tempero bom... E te ver se saciando.
Quero um tempo de arrumar seu colarinho, antes de você sair, te abraçar pra poder dizer se você está cheiroso, consertar suas meias gastas, pregar os seus botões.
Quero um tempo de acender incensos, ou colocar uma essência de sândalo no difusor, perfumar a casa, assar um peixe em um molho indiano, usar o perfume de jasmim e baunilha que você gosta, vestir meu vestido mais lindo, sem mais nada por baixo, e te esperar pra jantar. Ansiosa pra você chegar.
Quero um tempo de, sem maiores explicações, pegar a suas mãos nas minhas e beijá-las, e acariciá-las com o meu rosto.
Quero um tempo de te abrir a porta só de lingerie preta e provocante. (Foda-se se os vizinhos podem ver... Aliás... na nossa cabana, não teremos vizinhos)
Quero te puxar pela gola da camisa até a cama, sem dizer nada, sem te perguntar sobre o teu dia, ou sobre a rotina... Nem uma palavra... Quero te jogar na cama, abrir sua camisa arrancando os botões ( depois eu os prego novamente), arrancar o seu cinto como um chicote, arrebentar o zíper da sua calça, te arrancar a cueca e subir em cima de você já te colocando em mim. Você, extasiado...
Quero um tempo de acordar de madrugada sentindo você se encostando em mim, já ereto, e poder me esfregar mais ainda em você, te provocando até você arrancar a minha roupa e me penetrar com vontade.
Quero um tempo de estar na sala da nossa casa com você, e quando começar a tocar essa https ://youtu.be/ks02alWbpvk ou essahttps://youtu.be/-C_wz7gfiuI , você me puxar pra dançar de olhos fechados.
Quero um tempo de ficar de mãos dadas contigo, olhando as estrelas na nossa varanda... Você me contando os "causos" da sua infância... Eu, maravilhada, boquiaberta...
Quero um tempo de, sem mais nem menos, eu me aproximar e beijar os seus olhos... 
Sentir a textura da sua pálpebra nos meus lábios.
Quero um tempo de sentir sua semente crescendo dentro de mim. De sentir seu DNA correndo nas minhas veias. Sentindo você em cada célula, em cada poro. Sentindo no meu ventre a semente de amor que você colocou em mim, crescendo, virando uma vida, e você feliz,beijando e acariciando o pedacinho de você que está dentro de mim. ( Lembre-se: na nossa cabana, tudo é possível, meu amor)
Quero um tempo de saber que, por mais que o meu dia tenha sido terrível, por mais que as portas se fechem, por mais que os corações se endureçam a minha volta, no fim da noite, eu terei o seu peito pra repousar, e sua voz me dizendo pra eu não ter medo, pois você cuida de mim.
Quero um tempo de estar distraída lavando louça, e você chegar me abraçando por trás, da maneira mais safada que você sabe fazer, deslizando suas mãos pelos meus seios, pela minha barriga, pelo meu sexo, e eu, de olhos fechados, agradecendo à Deus por ter a oportunidade de te amar e ser amada por você.
Quero um tempo de fazer um cuscuz salgado bem simples, ou um bolo de laranja, com um uma garrafa cheia de cafezinho preto, pra gente poder sentar, tomar um café, e conversar por horas, como se nossos assuntos nunca pudessem acabar.
Quero um tempo de você beijando e mordendo meu ombro, me levantando delicadamente do sofá, pegando minha mão, me levando pro nosso quarto, me colocando na cama, tirando a minha roupa, me beijando inteira... E eu sentindo o prazer de dizer sim a todos os seus pedidos... Te mostrando que o meu jeito de amar consiste nos "sim" que eu te digo, nos teus desejos mais loucos que eu prontamente realizo. A cada vez que eu me deito contigo, você percebe como uma mulher que realmente ama se entrega de verdade. Você sabe. Meu corpo é seu, meu coração você já carrega, e minha alma está ligada à sua.
Quero um tempo de acordar bem cedinho, antes do sol nascer, e passar um tempo infinito, olhando você dormir... prestando atenção aos seus movimentos, os mais leves, e na sua respiração. Perder a noção do tempo acompanhando o ritmo da sua respirando, e agradecendo à Deus pela sua vida.
(Não consegui dormir essa noite.  02:51)
PS: Todas essas coisas não são pedidos. Também não são cobranças
Muito menos são esperanças nutridas pra um agora. 
São coisas que saíram de mim.
São imagens distantes, de um desejo quase que inconsciente...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Quintal

E agora, após a leitura chocante de textos-profecias que já apontavam sua presença na minha vida, eis que talvez, nós nos buscamos tanto, que finalmente aconteceu.
E hoje, mais que nunca, eu me espanto. Reli predições sobre sua existência, que eu nem me lembrava de ter escrito.
E então, veja só... Você já era realidade sem eu ao menos imaginar.
E o mais assustador: eu te busquei implacavelmente, incessantemente... até que te achei, até que nos achamos...
Obedecemos ao pressuposto quase esotérico de que "quem procura, acha!!!"
Nos achamos...
Nos reconhecemos...
E agora? Te assusta que eu te queira todos os dias?
Hoje eu sei sobre você. e sei que você tem medo de mim...
Ainda canta pro luar?
Estou á beira de um lago e próxima a uma fogueira, onde espero por uma dança.
Por que esperar por alguém que talvez nunca chegue?
O que faria um coração bater, se não fosse a espera?
Também posso fazê-lo parar.
-Parar como?
-Parar de sentir.
-Eu já tentei fingir que é mentira, tentei ser uma atriz, mas não consegui. Isso te assusta?
-Não. Eu gosto de ver. Mas fico pensando no que sente.
Vc buscou o amor, achou a mim, ao céu, às flores...


Sabe o que eu gosto de imaginar?
Gosto de imaginar o dia em que eu te "ver" pela "primeira" vez.
Penso que estaremos em um mesmo espaço. Eu, atordoada e dolorida pela ideia da sua presença, e você, sem desconfiar de absolutamente nada.
Me imagino chegando a esse local com uma desconfiança que não é minha, lutando para me esconder o máximo que posso, assombrada por qualquer pessoa que se aproxime.
É como se todos fossem um pouco de você.
Então, eu me assento, guardo os meus pertences, e me recolho com muito mais cuidado...
Elaboro cada segundo ao me banhar, ao escolher uma roupa, vou me demorando na covardia que posso, até onde me é permitido, afinal, tenho tarefas a cumprir. Tarefas essas onde você estará presente. E eu sinto medo.
E me desfaço de muitas coisas. Não identifico por que, mas a orgulhosa neófita, comumente de vestido preto discreto porém deslumbrante, sorriso encantadoramente vermelho, numa homenagem ao poder vermelho que em mim habita...
Desta vez, essa mesma mulher está de pés no chão, rosto completamente limpo, com um vestidinho simples, que mistura o azul escuro do céu, o tom rosáceo dos fins de tarde, com alguma explosão estelar ou seria uma galáxia, bem no peito... Um cordão no pescoço com uma pequena ágata, os cabelos displicentemente soltos, despenteados pelo vento. Dois grandes vincos verticais  no centro da testa, manifestando uma contrariedade longeva e persistente, só vencida pelo sentido de obediência e necessidade hierárquica que permeia minha vida.
Parte de mim daria qualquer coisa pra não estar ali. Outra parte sentia todos os sentimentos, e o primeiro deles, era curiosidade.
E então meu Mestre me convida a cantar. Eu hesito por três sou quatro segundos, mas lembro da tatuagem da obediência e sigo. A testa ainda com os vincos verticais, eu passo pelos presentes sem olhar nem ver a ninguém.
Chego até a frente,e  ainda sem olhar pra quem me olha, e sorrio pensando na vingança interna, no prazer mórbido que sempre me dava cantar essa música, e te imaginar como o triste rei, morrendo na janela vendo coisas ao luar. Gosto de te imaginar sofrendo.
E entoo a canção como se de mim saísse vida. a minha melhor interpretação.
E quase no final da música, pouco antecedendo os graves, eu olhei. E lá estava você. Ao fundo, em pé, estático, quase escondido, apavorado.
E eu fingia que não te via.
Quando saia da frente, já não te via mais.
E agora, você já conhecia minha presença. E agora? Pensaria que eu vim atrás de você? Provavelmente. O presunçoso que você é. Aí eu sentia ódio. Estava ali obrigada. E agora? Você iria embora? Tinha certeza que não. Eu sentia que, como o rato medroso que você é, você viria ao meu encontro. Quando eu estivesse sozinha, como um rato faz. Sem testemunhas.
E então passadas algumas horas, eu que nesse lugares sempre sou sociável por escolha, por gostar e conhecer gente, estava alí, presa à raiva e ao medo, sentada em um toco de árvore, os dois vincos da testa ainda mais fortes, com um graveto nas mãos, afastada de todos, rabiscando fórmulas matemáticas, letras de músicas e desenhos tristes na areia. Eu estava de cabeça baixa, meu cabelo, sempre mais comprido, caídos como a tristeza, no meu rosto, nos ombros, nas costas, e nos braços.
E então, eu escutei a sua voz. Nesse momento, meu espirito queria era estar do lado de fora, apenas contemplando a cena, apenas sendo narrador contemplativo desse conto, Pela maneira com que eu tenho essa cena gravada na memória, acho que parte de mim saiu para fora, sim.
Você disse duas palavras:
- Finalmente, Senhorita.
Eu quis esconder o rosto, sair correndo, continuar fingindo que tinha sido apenas o vento soprando bobagens no meu ouvido, com sua voz grave.
Mas não. Eu via seu semblante negro, a despeito das suas roupas claras e do seu chapéu panamá.
Eu não queria, mas olhei pra cima mal virando o rosto, e sem parar de mexer na areia, tentando desesperada e ridiculamente não dizer nada, e não demonstrar interesse.
Até o Sol me traiu, nesse momento, fazendo com que eu apertasse um pouco os olhos, trazendo à minha face um semblante levemente risonho, que eu queria arrancar do rosto, substituindo por ódio. O sol ofuscava um pouco os meus olhos, ao que eu tive que colocar a mão na têmpora, para conseguir realmente ver seu rosto, e me senti ridícula e traída até por isso.
A raiva realmente não permitia que eu sentisse vontade de pular no seu pescoço e te abraçar. Talvez alguma menina perdida e aprisionada dentro de mim GRITASSE, IMPLORASSE,   com toda a sua força, por isso, mas eu já estava treinada, e a segurava do tórax para baixo. Essa menina estava presa, contida, amordaçada com sucesso, e não me oferecia perigo.
Eu finalmente te olhei de verdade. Finalmente seu olhos. Estavam apertados demais, em relação ao sorriso contido e meio cínico. Esse sorriso. Era o que doía na alma.
Era o que me dava vontade de chutar a sua cara. Menos mal, eu pensei. Se fosse o outro sorriso, aquele aberto e gigante,  eu teria chorado até morrer. Eu teria gritado, eu teria pulado nos seus braços.
E eu te respondi, num tom que tentava se passar por apático:
-Finalmente...

Eu fiz uma promessa, a alguém muito Importante, certa vez.
Eu completamente ao chão, e Ela, com um dos pés entre a minha cabeça e o meu pescoço.
E Ela me disse: Ele já foi a sua vida, ele será a sua vida, ele já te mostrou o caminho, ele elevou seu patamar, ele abriu seus olhos.
Mas mesmo ciente de tudo isso, mesmo sabendo que o que ele sente é verdadeiro, você vai me PROMETER, vai se  COMPROMETER a NUNCA procurá-lo. Nunca, sob hipótese nenhuma, você irá procurá-lo. Você não irá ao encontro dele, você não falará com ele. Você irá fugir dos lugares em que ele esteja, a não ser que seja ORDENADA por um Mestre a ir ou a contactá-lo.
Do contrário, só falará com ele se ELE  quiser ou te procurar. Não vai mais enviar NENHUMA mensagem, sem antes ele falar contigo primeiro.
Ele precisa de paz para finalizar o próprio caminho. E você dar a ele essa paz é a única condição que eu coloco para que você me sirva.
E eu obedeci cegamente, até este dia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

13/10 /2016 Segundo Encontro



Estou na Ante Sala do Tempo.
E aguardo ansiosa. É a segunda vez, mas confesso que se fosse a milésima, ainda me sentiria desconfortável, meio inadequada, meio ridícula. Talvez uma aspirante...  Nem iniciante, nem iniciada.
Não sei se mereço esse lugar...
Sou apenas uma buscante...Tal qual criança, mesmo. E Ela é sempre a Mãe Amorosa. E é Amorosa justamente por ser Superior, Divinal, e ainda assim, Amorosa como a brisa. Poder e tolerância nem sempre andam juntos. Mas Ela é Poder com Tolerância e muito mais...
E eu remexia os dedos freneticamente, triturava algo invisível, e enquanto isso, pensava...  pensava.
Eu precisava de uma conversa com ela, dessa vez não era por visões,  precisava de mil respostas, mas eram tantas as perguntas, que eu nem sabia por onde iniciar.
E na verdade, estava era com medo de acabar por não conseguir fazer pergunta nenhuma. E a luta no pensamento era cíclica.
Até que os preparos ficaram mais intensos, e eu fui levada á Sua Presença.
Ao chegar lá, fiquei alguns segundos com medo de não conseguir dizer, e por fim, eu disse, abruptamente:
- Mãe, não sei se posso querer algo, mas se eu puder,  hoje eu não quero visões, não quero sinais. Hoje eu preciso de um caminho. Um caminho para a Abundância, Mãe.
Olhe só para a minha vida, olhe para mim...  Eu tenho tantas necessidades, básicas, imediatas...
Como eu posso conseguir seguir um caminho, tomar conta da minha vida espiritual, e da de outros, se não dou conta nem da minha vida física, material? Eu preciso de Meios, Mãe. Preciso de condições plenas para executar o caminho traçado.

Ao que Ela disse: 
      
Pequena, olhe para si...

O que você viu de você, hoje, pela manhã?

E, de fato, eu lembrei de mim, deitada estava, sentindo pena de mim mesma, e praguejando contra a minha vida. Deixava que o Buraco no Peito tivesse pleno espaço. Sentia-o como uma necessidade. Ele me machucava, mas eu não conseguia largá-lo.

Então, Ela disse:

-Você estava no costume do sofrimento. Criou dentro de si a crença de que o sofrimento é o seu lugar, e que a não ser com uma força, um esforço sobre humano, não conseguiria "sair da caverna". 
VOCÊ ESTÁ ERRADA!!!
Você nasceu para Mim. Você nasceu para a Plenitude, Pequena. 

Nasceu para a Abundância, Mas para isso, precisa se ligar à Mim. 
Você precisa compreender que QUE SOU A ABUNDÂNCIA, e que para desfrutar disso, é necessário estar em Mim. Você não é e nunca foi, nem por um segundo,  uma parte separada de Mim. Você faz parte de tudo que Eu Sou, assim como eu sou cada ínfimo pedaço de você. 
Mas você precisa SABER isso, SENTIR isso, AFIRMAR isso. 

Precisa se imantar completamente à Mim. Como se você já tivesse "voltado  para casa", como se fôssemos Uma, novamente. 
Dessa forma, cada gota no chão, cada ajuntamento específico de palavras ou cheiros, cada coincidência, todos os Sinais... Todas essas coisas serão SEMPRE a condição essencial da Sua Vida, por que Eu estarei Nela. Uma vida repleta em cada minúcia, de bençãos, de pressentimentos, de conselhos, de boas oportunidades e de Abundância. Cada detalhe não será só um detalhe, Minha Pequena. 
Cada detalhe serei EU. 

Como tua Guia
Como teu Consolo
Como tua Escuta
Como tua Força
Como tua Voz

Unemo-nos... E você verá as Mudanças. 


Diante dessas palavras, todas as mil e tantas questões foram respondidas. 
O cerimonial prosseguiu, e antecedendo cada junção física com Ela, uma voz masculina, com os Elementos em mãos e por sobre minha cabeça, perguntava: 

TENS MEDO???

Ao que eu respondi tão rapidamente, pela primeira vez NESSA VIDA, como se já soubesse aquela resposta de outros tempos, outras eras, como se ela estivesse gravada dentro de mim, automática: 

JAMAIS.

E eu entrava em Sua Presença, em Seu Ser. Me deliciava com segundos que eram décadas de perfeição e bondade, até que Ela me exigia a postura que Ela gosta, e eu voltava a ser o ser que eu Sou. 
E decorridos alguns segundos de êxtase, eu ansiosa por senti-La novamente, quando ele se aproximava, elementos em mãos , e perguntava mais uma vez:

TENS MEDO???

E a resposta era sempre a mesma: 

JAMAIS. 

E eu, em toda essa vida, talvez nunca tinha experimentado tamanha confiança em mim mesma, e em todas as vezes que eu entrei Nela, e Ela entrou em mim, meu Coração era todo... 
 ...
PREPARO.


sábado, 7 de novembro de 2015

Castelo de areia.

Em certo momento, por alguma revelação divina, você descobre como era antes, e se dá conta de como é pouco tudo o que você melhorou até hoje.
Tudo que eu tinha como certeza sobre mim mesma, todos os caminhos que eu imaginava que fossem sólidos apenas por que eu construí, enfileirando pedra por pedra... Tudo isso virou pó no momento que eu percebi como é frágil esta sensação de estabilidade, como é frágil tudo o que eu sei sobre mim mesma.
Sei muito pouco sobre mim, hoje vejo muito mais fragilidade do que eu via antes, e não sei exatamente até que ponto me engano, até que ponto não enxergo minhas forças.
Sonhei comigo, vivendo em outro tempo, e lutando ferozmente para manter em mim a imagem que tenho de mim mesma.
Lembrei que dizia, sofrida e serenamente que aquelas pessoas iam se arrepender muito de tudo o que faziam, mas eu dizia isso pensando no futuro, pensando no trabalho da minha alma imortal, no encontro de todas as almas imortais, onde todas as verdades e erros são revelados.
E quando conseguia um mínimo de paz, perguntava dentro de mim, se alguma das coisas que eu pensava sobre mim eram verdade...
Era a noção que eu tinha de mim mesma, as coisas que eu pensava sobre mim, as venturas que eu tinha absoluta certeza que eu merecia viver é que me levavam adiante mais um dia.
Mas nem sempre era assim. Em alguns momentos, o que me mantinha viva era a obsessão pelo sofrimento. Era o mergulho na dor...
A aceitação da dor...
A culpa pela dor...
Era o sentimento de que eu merecia tudo aquilo, que eu era exatamente o que os outros viam, e não o que eu sentia que era.
Que ironia... Eram a dor e a esperança que me mantinham viva, em momentos alternados...
Agora vejo com mais clareza o quanto a dor tem o papel de nos manter vivos. 
É melhor o mergulho na dor do que o mergulho na morte... Ou na indiferença.
E agora eu vejo... Essa tão frágil auto-imagem, tão delicada,  tão arduamente construída...
Ou será que na verdade, esse tempo todo, era só uma máscara de cristal?